concerto: anna ihlis + cosie cherie @ cabaret maxime, lisboa

04 de Novembro 2010

“Embrenhado na clássica atmosfera de meados do século XX, o Cabaret Maxime, banhado em tons nocturnos de vermelho, recebeu duas actuações íntimas – que congregaram, num só ponto, os ares de três distintos recantos europeus: Portugal, Holanda e Suécia.

Aos Cosie Cherie foi-lhes incumbida a tarefa de abrir a noite de um quatro de Novembro que já estava pronto a entregar-se à madrugada de dia cinco. Visivelmente nervosos, o duo luso-holandês – composto pela voz portuguesa de Tânia e pela guitarra electro-acústica do neerlandês Job (que, ocasionalmente, também cantou) – interpretou em meigo tom as canções do seu novo EP Making Magic Floating Boats. Num folk acústico de toada suave, melancólica, feliz e quase ingénua, o simpático par conseguiu esculpir sorrisos às cerca de duas dezenas de pessoas presentes.Imagine chegou até a provocar um clássico “Ah, fadista!”, gritado por um espectador. Nick Drake teria ficado satisfeito com esta curta, mas sincera, actuação dos Cosie Cherie, aos quais ainda se pediu “mais uma”, mas sem sucesso.

O palco ficou disponível para a invasão nórdica que se seguiu. A sueca Anna Ihlis fez-se acompanhar por quatro músicos vindos também de Estocolmo. Em conjunto, interpretaram vários temas de I Stay Awake… Goodmorning, bem como algumas faixas novas. De aparência pitoresca, de onde sobressaem os suspensórios e o penteado avant-garde, Anna Ihlis esconde atrás da sua suposta fragilidade um talento frenético para a criação musical. Poderemos até chamar-lhe um talento criativo bipolar, que vai variando entre o toque melífluo de uma Time Stops, à saudável demência de uma Dance. Talento bipolar acompanhado, sempre, pelo quarteto que Anna tanto elogiou durante a hora de concerto.
Sem aparente barreira artística, o setlist da jovem sueca vagueou entre uma pop underground (conceito difuso, este), um jazz afoito e um rock clássico, distribuído com belos solos de guitarra de Mattias Fjellstrom, imponente figura de palco. Esta mescla, em jeito de triunvirato, encantou quem a viu, apesar de alguns problemas de som – sem que isso afectasse a actuação por aí além.

A porcelana de que Anna parece ser feita nunca chegou a quebrar. Pelo contrário, a sueca, na sua pose teatral e interpretativa, conseguiu mostrar que a argamassa da qual é composta é suficiente para encher um palco, com o seu timbre cristalino e o seu cabelo que virou negro, certo dia.”

in Ponto Alternativo