concerto: cosie cherie @ lisboa

19 Novembro 2010

“O dia tinha sido monocromático, frio e húmido. A cidade pululou numa azáfama redobrada por um qualquer encontro de gentes importantes ali nos arredores. Nós, comuns mortais, limitámo-nos a procurar um refúgio. E nada foi melhor refúgio no dia de hoje que a música que os Cosie Cherie apresentaram para quem os quis ouvir – e espero que no futuro sejam muitos mais – o EP Making Magic Floating Boats e algumas músicas novas.

Espaço Sou, em pleno labirinto ziguezagueante dos Anjos, lançava o mote. Íntimo mais íntimo, não há. A espécie de cave ocupada decorada com objectos (e roupas!) retro, mesas e cadeiras que convidam a beber um copo e puxar dois dedos de conversa prolongada, dava o mote. Só não se tornou totalmente acolhedor por causa da corrente de ar que volta e meia arrepiava quem por lá estava.

Há já algum que não via à minha frente algo tão honesto e sincero como a música e a maneira de estar desta dupla luso-holandesa. Tímidos e quase inocentes, mas com um entusiasmo visível, os Cosie Cherie subiram àquele palco minimal para dizer «Boa noite e obrigado por terem vindo. Vamos começar com uma música nova». A corrente de ar esquecia-se aos primeiros acordes da guitarra do holandês Job Leijh que, somados à voz aveludada de Tânia Carvalho – que também dá uns toques no piano -, embalaram toda a gente de imediato. Cor, muita cor se via em temas como Bedtime, que facilmente emulava tanto a alegria do Verão (em Travelling) como a melancolia do Outono (em Imagine). Mas sempre confortável e tão facilmente identificável, muito devido à postura bem-disposta (“”thumbs up” para o guitarrista, que revelou ter também jeito para as cordas vocais!).

Discorrer música tão sincera como a dos Cosie Cherie (já foram ao site deles descarregar o EP?) parece tarefa fácil, mas é como se diz por aí: há que ser feito com amor. E tenho que voltar a insistir em alguns pontos: a honestidade e a sinceridade da dupla, mas acima de tudo a simplicidade desarmante que Nick Drake muito provavelmente iria agraciar de imediato. Tão desarmante que, quando o microfone surgiu desligado, o sorriso foi imediato: mas não por piada ou vergonha alheia. Antes por identificação: podia ser connosco! Afinal, eles são tão humanos como nós, feito da mesma matéria e sentimentos. Podíamos ser nós ali em cima, perante amigos ou desconhecidos. Faz falta – nem de propósito, em alturas de tanta gente importante por aí reunida – sentirmos algo tão terra-a-terra como a música dos Cosie Cherie.

Algures entre a folk de laivos mais americanos de Travelling e a pop mais “fofinha” (queria mesmo arranjar outra palavra, mas se a música fosse palpável, apetecia agarrar) de Blue Sky, saltavam à cabeça nomes como Belle & Sebastian ou a banda formada , por exemplo. Mas sem tiques, para além da inocência de quem só agora começou. E fica-lhes tão bem. Por trás, ia sendo pintado numa tela – com um material que penso ter sido aguarela – aquilo que no final se revelou ser um retrato. E eu era capaz de jurar que aquilo tinha laivos de Van Gogh. Uma espécie de fundo para todo o quadro musical que os Cosie Cherie foram pintando de forma aveludada.

A performance foi honesta e realmente empenhada. Pareceu tudo tão fácil e cristalino para eles – não houve erros, apenas pequenos percalços únicos que embelezaram o concerto – que por momentos corremos a pensar que também conseguimos. Mas deixemo-nos estar quietos, eles é que sabem e o embalo já está dado e agora é aproveitar. Podiam estar a tocar de fundo, mas é ainda melhor: estão a tocar para nós. Vale a pena.

Um serão com os Cosie Cherie, num espaço a visitar no futuro. É certo que ainda estão a dar os primeiros passos, mas com indicações como as que deixaram ontem, eu quero mesmo augurar-lhes um bom futuro. Que continuem a gravar e a tocar, sempre com a honestidade e a vontade desta noite. E que bela, bela voz!”

in Ponto Alternativo